Ferramenta 1: Continuar, Começar e Parar
O ano estava terminando, vários Grupos Escoteiros já pensando no planejamento de 2024, e Mauro decidiu entregar uma dinâmica que transforma a reunião de planejamento - tradicionalmente arrastada - em algo mais vivo. A dinâmica nasce de três perguntas simples, respondidas antes da reunião pela própria comunidade do Guia Decola no WhatsApp.
As técnicas que eu vou compartilhar com vocês são aplicáveis em qualquer lugar onde tem mais de uma pessoa - já dá para aplicar.
- Mauro Lages, sobre a abrangência do método
A primeira ferramenta responde a três perguntas, feitas separadamente e nesta ordem quando possível: o que acontece hoje e deveria continuar acontecendo; o que não acontece hoje mas deveria começar a acontecer; e o que acontece hoje e deveria parar de acontecer. Cada resposta pode vir de um post-it, de um formulário assíncrono ou de uma rodada de conversa com o grupo dividido por seção ou ramo etário.
Continuar
Atividade entre as seções, qualificação dos adultos e equipe de pais - o que já funciona bem e não pode ser esquecido só porque não é "um problema".
Começar
Acampar mais, captação de recursos e cultura do reconhecimento - anseios que o grupo ainda não vive, mas gostaria de viver.
Parar
Conflitos, baixo efetivo de voluntários e evasão - o Escotismo do Brasil perde cerca de 30% dos jovens por ano; a meta da campanha dos 150 mil é reduzir para 23%.
Não existe uma regra fixa de como dividir os participantes: pode ser feito com todo o time de voluntários de uma vez, em pequenos grupos por seção, ou de forma totalmente assíncrona - dando de alguns dias a duas semanas para que cada um preencha um formulário ou um quadro do Padlet antes da reunião presencial. A dinâmica também funciona muito bem com os jovens, e não só com os adultos: Mauro recomenda o Fórum de Jovens, realizado de duas a três vezes ao ano, inclusive fazendo uma rodada separada com jovens e outra com adultos para não gerar conflito entre os dois grupos.
Ferramenta 2: a matriz de Importância x Realização
Feito o diagnóstico, cada item das três listas entra numa segunda matriz, desenhada como dois eixos: o quanto aquilo é importante para a instituição e o quanto ele já é realizado hoje. A regra é simples e vale para qualquer item, venha do continuar, do começar ou do parar.
Quanto mais importante e menos realizado, mais prioritário. Por quê? Porque aí você atende uma demanda que já está posta, e responde a ela quanto antes. As coisas importantes que já estão sendo realizadas, você só precisa garantir que continuem - a prioridade delas é menor.
- Mauro Lages, sobre a lógica da priorização
Parecido com a Matriz de Eisenhower
Mesma lógica de priorização por dois eixos - a diferença está nos critérios de enquadramento. Aqui nada é descartado: mesmo o que sobra no quadrante de menor prioridade continua no radar do planejamento.
Também dá pra usar GUT
Gravidade, Urgência e Tendência, cada uma de 1 a 5, multiplicadas entre si (até 125 pontos), é outra ferramenta de priorização - mais usada para ranquear riscos do que para alimentar um plano de ação amplo como este.
Na prática, o facilitador (ou os facilitadores) recolhe as opiniões do grupo sobre cada item e vai posicionando os cartõezinhos de post-it no mapa - sem impor o próprio julgamento. É normal que nem todo mundo concorde com a posição final de um item; o papel de quem conduz é buscar um equilíbrio razoável, não a unanimidade.
O exemplo montado ao vivo
Para ilustrar, Mauro montou ao vivo o mapa de um Grupo Escoteiro hipotético, cruzando os itens levantados no diagnóstico. É meramente ilustrativo - mas mostra bem como o mesmo item pode receber posições bem diferentes.
Repare no contraste: qualificação dos adultos é reconhecidamente importante, mas o grupo hipotético só ajuda "com gasolina e lanche" - sem programa de incentivo estruturado, fica no meio do caminho. Já atividade entre seções é tão importante quanto, só que o grupo já faz isso com frequência - por isso tem baixa prioridade no plano futuro, mas alta prioridade em continuar sendo bem feita. E conflitos, apesar de universalmente grave, aparece na pior posição possível: todo mundo concorda que precisa parar, mas ninguém faz nada além de "administrar com panos quentes".
Ferramenta 3: o Plano de Ação por times voluntários
Com o mapa de prioridades pronto, Mauro selecionou três eixos temáticos para transformar em ação, um de cada lista: parar os conflitos, começar a acampar mais e continuar a qualificação dos adultos. A partir daí, o processo deixa de ser sobre "o que precisa mudar" e passa a ser sobre "quem vai fazer o quê".
Escolher os eixos prioritários - ou trabalhar todos
Dá para atacar só o primeiro quadrante da matriz (o mais crítico) num primeiro ciclo, ou distribuir esforço por tudo. A escolha depende da capacidade de execução da diretoria e dos voluntários disponíveis.
Voluntários se distribuem por eixo temático
Em vez da diretoria assumir sozinha cada tema, o convite é para que os voluntários se distribuam voluntariamente entre os eixos que querem ajudar a resolver - viram pequenos times, ou comissões, um por tema.
Cada time sugere ações - sem entrar no detalhe ainda
A pergunta para cada eixo é objetiva: "o que a gente pode fazer aqui?". Cada pessoa contribui com uma ou mais ideias em cartõezinhos, sem se preocupar em descrever tudo - o foco é macro, não micro.
Fatiar as entregas em pedaços pequenos
Em vez de um plano grande e distante, cada time quebra a própria ideia em entregas pequenas e frequentes - conceito emprestado do agilismo. Isso mantém o time motivado e revela desvios de rota cedo, antes que fiquem grandes demais para corrigir.
Eleger um coordenador por eixo temático
Não é obrigatório, mas ajuda: alguém com afinidade com o tema (ex.: um pai advogado cuidando do eixo de conflitos) pode puxar o time sem que a diretoria precise microgerenciar cada ação.
Execução, acompanhamento e o paralelo com o PDCA
Quando perguntado pela audiência o que faltava no processo, a resposta veio do chat: avaliação. As três ferramentas cobrem o diagnóstico (avaliação) e o planejamento; falta o acompanhamento - o "check" e o "act" de um ciclo PDCA.
A diretoria coordena, não microgerencia
O papel macro continua sendo da diretoria - remover barreiras da frente dos times, acompanhar o andamento com uma periodicidade definida (trimestral, mensal ou semanal, a depender da proximidade e disponibilidade dos adultos) - mas quem executa e prioriza dentro do próprio eixo é o time voluntário.
Cada time tem autonomia sobre o próprio eixo
Se um time quiser usar GUT, outro Eisenhower e outro nenhuma ferramenta formal, tudo bem - a autonomia é do time. Aqui entra também o conceito de agilismo: pequenas entregas contínuas, no espírito do Scrum, em vez de uma entrega única e distante no tempo.
Exemplo real · acampar mais
Revisar os calendários sobrepostos
Olhar o calendário Nacional (ex.: Jamboree), Regional, Distrital e do próprio grupo (AGP, AGI, AGV) ao mesmo tempo costuma revelar que já existem oportunidades de acampar todo mês - só faltava enxergar isso sobreposto.
Exemplo real · qualificação de adultos
Oficina informal com um convidado, não só curso formal
Convidar alguém da região que domine um tema para uma conversa online de 1h30 - Mauro cita um caso em que isso levou três escotistas a concluir o nível intermediário em 30 dias.
Nem todo mundo vai se voluntariar - e tudo bem
Vá para a reunião sem a expectativa de que todo eixo temático vai ter um time completo. Se isso acontecer, ótimo, o processo de engajamento funcionou muito bem. Se não, distribua menos ações por período (ex.: uma ação por mês em vez de seis) e mantenha o foco no que realmente tem gente para tocar.
Outras ferramentas citadas na live
O método principal é deliberadamente artesanal - papel e post-it - mas ao longo da conversa com o chat, várias ferramentas complementares apareceram.
Gestão visual
Papel na parede em vez de nuvem
Se o diagnóstico fica só no computador de alguém, ele se perde. Deixar os cartazes na sala da diretoria ou de reunião mantém o plano visível - e vira motivação ao longo do ano.
Digital · assíncrono
Miro, Padlet ou Google Forms
Para fazer a mesma dinâmica à distância: Miro permite montar e mover cartõezinhos em quadro compartilhado; Padlet é mais simples para coletar respostas em lista; formulários servem para a fase de diagnóstico.
Priorização de risco
GUT - Gravidade, Urgência, Tendência
Cada critério vai de 1 a 5 e se multiplica (até 125 pontos). Nasceu para priorizar riscos, mas pode ser usado por qualquer time dentro do próprio eixo temático.
Agilismo
Scrum e entregas contínuas
Framework nascido no desenvolvimento de software, hoje usado em outras áreas: entregas pequenas e frequentes em vez de um projeto inteiro entregue de uma vez só.
Planejamento de projeto
Project Model Canvas & Business Model Canvas
Mais indicados para estruturar um projeto específico ou desenhar um novo Grupo Escoteiro do zero. Mauro cita ainda uma adaptação própria, o "Funding Model Canvas", voltada a projetos de captação de recursos.
Por que ensinar ajuda a aprender
A pirâmide da aprendizagem
Segundo a pirâmide, ensinar algo para outra pessoa retém de 90% a 95% do conteúdo - contra cerca de 10% só na leitura. Um dos motivos, segundo Mauro, de ele próprio aprender enquanto compartilha essas ferramentas.
Aplicou no seu Grupo Escoteiro, ONG ou empresa?
Mauro pediu isso ao vivo: tire uma foto do teu mapa de diagnóstico, priorização ou plano de ação e marca o Guia Decola no Instagram. É a forma dele ver a ferramenta rodando de verdade.
De onde vem este conteúdo
Esta página é baseada na transcrição integral da live "T02 EP16 - Diagnóstico e Planejamento" (30/11/2023), do canal Guia Decola. A dinâmica de Continuar/Começar/Parar foi originalmente ensinada a Mauro Lages por Jorge Horácio Faudi, professor da PUC-RS, num processo de planejamento de empresa.
