A segurança sempre existiu no escotismo
O termo "gestão de risco" é recente, mas a preocupação em si não é novidade - Marcelo André Florian traça essa linha do tempo desde Baden-Powell até a política atual dos Escoteiros do Brasil.
Baden-Powell já estruturava uma cultura de prevenção desde o acampamento de Brownsea, contextualizada nos contos do Escotismo para Rapazes e reforçada na formação de adultos em Gilwell Park. Com o passar dos anos vieram adequações por faixa etária, parcerias com Cruz Vermelha e Defesa Civil, e um salto de exigência com os grandes eventos - Jamborees com milhares de jovens forçaram a instituição a amadurecer planos de segurança, permissões e autorizações formais. Foi ali, segundo Florian, que nasceu o embrião da segurança em atividades escoteiras como ela existe hoje.
O ponto de virada mais recente é a chegada da gestão de risco como política formal, incorporada agora como obrigatoriedade no POR (Programa de Organização Regional). Até então a segurança tendia a ser padronizada - um modelo único aplicado a qualquer grupo, em qualquer cidade. A gestão de risco muda essa lógica: permite personalizar a segurança para os jovens, o local e a realidade de cada seção, em vez de encaixar todo mundo no mesmo molde.
Três conceitos que não podem se confundir
Gestão de Risco, Plano de Segurança e Plano de Contingência costumam ser tratados como sinônimos - e não são. Cada um responde a uma pergunta diferente, num momento diferente.
Gestão de Risco
Natureza estratégica e analítica. Começa bem antes da atividade e continua depois, com avaliação e monitoramento contínuos.
O que pode dar errado - e qual o impacto se der.
Plano de Segurança
Mais operacional. Usa os dados da gestão de risco, mas é focado nas pessoas e nos bens durante a aplicação daquela atividade específica.
Como evitar que dê errado.
Plano de Contingência
Entra em ação depois que o risco se materializou - o problema já aconteceu. Interrompe o efeito dominó antes que vire uma questão jurídica ou financeira.
O que fazer quando já deu errado.
Exemplo dado na live: uma pista de obstáculos. Numa rampa lisa, o risco é o tênis do jovem escorregar e ele bater o queixo (gestão de risco). O plano de segurança é martelar degraus de madeira na rampa. Se, mesmo assim, alguém se machucar, o plano de contingência é acionar a brigada e o time de enfermagem. Os três planos, juntos, cobrem o antes, o durante e o depois de uma mesma atividade.
Risco não é sinônimo de perigo
Quando se fala em risco, o primeiro instinto é pensar em algo negativo. Mas dentro da gestão de risco existem riscos aceitáveis - e até riscos positivos - além de nove categorias que vão muito além do físico.
Acampar no meio do mato, subir numa parede de escalada ou sair para uma jornada ciclística são riscos - mas são riscos que fazem parte do programa educativo, aceitáveis dentro de uma tolerância definida. A gestão de risco não existe para impedir essas atividades, existe para que aconteçam com a menor chance possível de sair errado. Existem até riscos positivos: descobrir, já no local, que há uma enfermaria montada ali perto, ou que um dos adultos staff tem 2,10 m de altura e consegue segurar qualquer jovem na descida - oportunidades que ninguém tinha como prever, mas que jogam a favor da segurança.
O mais grave
Abuso
Emocional, psicológico ou físico. Pouco frequente, mas o de maior gravidade potencial.
O mais presente
Segurança física e psicossocial
O risco mais comum na aplicação do programa - por negligência, imperícia ou imprevisto.
Todo evento tem
Operacional
Falhas de logística, adequação, capacitação e, sobretudo, comunicação.
Cada vez mais comum
Tecnológico
Ataques cibernéticos, roubo de informação, interrupção de serviço - coberto também pela política de tratamento de dados.
A foto que viaja
Reputação
Dano à imagem do grupo ou da instituição - até um simples martelo batendo um prego numa árvore pode virar uma foto mal interpretada.
As regras do jogo
Conformidade
Descumprimento de normas mundiais, federais, estaduais, municipais ou internas do próprio grupo.
Administrativo
Gestão
Falta de liderança, de transparência, má gestão de recursos.
O efeito dominó
Jurídico
Processos e disputas legais - normalmente consequência de outro risco que já se materializou antes.
A conta no fim
Financeiro
Prejuízo patrimonial e a capacidade do grupo de se manter solvente na aplicação do programa.
Quem faz a gestão de risco
A pergunta mais comum: precisa de um engenheiro, um técnico de segurança do trabalho? A resposta de Florian vai na direção contrária de qualquer padronização importada de fora do movimento.
A pessoa mais correta, mais certa para fazer essa atividade é a pessoa que vai aplicar a atividade, que conhece os jovens, que conhece o local. A gente não tem normativas prontas para o que fazemos - por isso quem gerencia o risco tem que ser quem está lá.
- Marcelo André Florian, sobre quem deve conduzir a gestão de risco de uma atividade
Não existe uma norma pronta para o "jogo do passa-15" ou para uma jornada ciclística no interior de Caxias do Sul - cada local, cada grupo de jovens e cada época do ano muda o cenário de risco. Por isso, capacitar o próprio voluntário para enxergar riscos é o foco da Equipe Regional de Gestão de Riscos do RS, junto com duas outras frentes: desenvolver a gestão de risco em grandes eventos regionais e manter um banco de dados de boas práticas para servir de referência a quem for aplicar uma atividade parecida.
A ferramenta: matriz de risco
Um modelo consolidado, usado fora do escotismo e adaptado para as atividades escoteiras do Rio Grande do Sul. Cruza dois parâmetros - probabilidade e consequência - para chegar num nível de risco e numa cor de ação.
Exemplo dado na live: picada de inseto num acampamento. A probabilidade de algum jovem ser picado por mosquitos ou formigas é praticamente certa. A consequência, se ninguém tiver alergia registrada na ficha de saúde, é pequena. Cruzando os dois parâmetros, o nível de risco fica dentro da faixa amarela ou laranja - e não da vermelha, porque a consequência esperada é baixa. Florian faz um alerta importante aqui: nem otimismo demais (que ignora o risco) nem pessimismo demais (que pinta tudo de vermelho) ajudam - o ponto certo é uma leitura neutra, com os pés no chão.
O risco nunca some por completo - o que sobra depois das medidas preventivas é o risco residual. É esse risco residual, menor que o original, que o Plano de Segurança existe para administrar. A cor de cada nível indica a ação esperada:
Verde
Baixa probabilidade ou baixa consequência: aceitar e gerenciar o risco.
Amarelo
Média probabilidade ou média consequência: monitorar e compartilhar o risco com a equipe.
Laranja
Mitigar ou transferir o risco, para reduzir probabilidade ou consequência antes da atividade.
Vermelho
Não há mitigação possível: substituir a atividade ou eliminá-la. Exemplo citado: intempérie climática severa em curso.
A APR na prática: Análise Preliminar de Risco
A APR é o documento que a Equipe Regional adotou para sistematizar a gestão de risco no Rio Grande do Sul - digitalizado, dividido por etapas, pensado para o voluntário leigo, não para um especialista. O exemplo abaixo é o usado numa base de escalada de um Campori.
Módulo, responsável e quantidade de participantes
Data, módulo, pessoa responsável pela base e, principalmente, o número de participantes que vão passar pela atividade - esse dado define a repetição e o desgaste do equipamento por atrito, calor e carga, e se será preciso ter unidades reserva.
Conhecer o local antes de qualquer coisa
Em uma atividade comum de seção, a primeira etapa é sempre ir ao local com antecedência - nunca confiar apenas em fotos antigas ou na lembrança de quem esteve lá há meses. A natureza muda um terreno em poucas semanas: erosão, animais que passaram a ocupar o espaço, um galho que caiu.
Risco: rompimento do sistema
Dano possível: de escoriações a fatalidade, dependendo da altura. Medidas: backup na ancoragem, inspeção rotineira, conferência dos procedimentos por dois voluntários, teste de carga. Nível de risco original 12 (laranja), residual 8 (amarelo) - ver matriz acima.
Risco: ajuste incorreto e contato não autorizado
Dano possível: queda por mosquetão destravado ou cadeirinha mal ajustada; mal-estar ou denúncia por contato físico não solicitado ao ajustar o equipamento em outra pessoa. Medidas: conferência do procedimento por dois voluntários, equipe com adultos de ambos os gêneros para vestir o equipamento, e solicitar sempre o contato de forma justificada antes de tocar o jovem.
Um detalhe técnico que aparece em quase toda APR de atividade em altura: o cabo de vida, a linha de segurança extra que um voluntário sustenta para o caso de o jovem vir a cair - usada tanto em atividades verticais (rapel, escalada) quanto horizontais (tirolesa).
Histórias reais: o que já deu (quase) errado
Nenhum dos dois convidados poupou exemplos da própria trajetória - nem sempre bonitos. São essas histórias que dão peso ao porquê da gestão de risco existir.
Fomos fazer rapel de noite, sem gestão de risco, sem plano de segurança, muito menos contingência. Um dos jovens caiu num buraco paralelo à ponte, uns 4 ou 5 metros, e rachou a cabeça. O que nos salvou naquela situação foi sorte, mesmo.
- Mauro Lages, sobre um rapel noturno em Pelotas na sua época de jovem escoteiro
Outras histórias trocadas na live, todas com o mesmo fio condutor - o risco óbvio só fica óbvio depois que alguém se machuca: uma tirolesa artesanal com cabo de aço e rondana soldada na marra, sem qualquer teste de carga; o cabelo comprido de uma jovem preso no freio 8 durante um rapel, empurrado para dentro do equipamento por uma rajada de vento; um jogo de "farol" com um galão de água de 5 litros girando como contrapeso, pesado o bastante para deslocar a perna de uma jovem antes de alguém perceber o risco e trocar o peso por uma fronha; e o "Rudão", um jogo de futebol americano com um toco de árvore gigante que segue machucando gente até hoje, porque ninguém nunca fez a lição aprendida de tirá-lo de circulação.
Um alerta sério
Nem toda história tem final feliz
Florian relembra o caso de um jovem que, durante uma atividade, subiu numa árvore que tinha cabos de alta tensão passando por perto e fez contato com dois deles ao mesmo tempo - o jovem não resistiu. Ele reforça: a segurança em atividades não é "a gradezinha coloridinha" nem "o documento bonitinho para preencher por preencher" - é uma prática que precisa ser levada muito a sério, porque os Escoteiros do Brasil já tiveram, em outras ocasiões, jovens que não voltaram para casa.
Riscos que passam despercebidos
Além dos riscos óbvios de altura ou de água, quatro categorias voltam sempre - e costumam escapar da análise porque não parecem "perigosas" à primeira vista.
Ergonômico
O facão sem fio, a mochila estourada de um lado, a pá com o punho rachado. Ferramenta mal cuidada é fricção, e fricção machuca - vale revisar o cabo, trocar a madeira, afiar antes de sair para o campo.
Fadiga e cansaço
Numa jornada longa - de bicicleta, a pé, remando - o corpo responde de um jeito que foge do controle: cãibra, desidratação, exaustão. É um risco tão real quanto um obstáculo físico.
Psicológico ligado ao físico
Um jovem com medo de altura levado a uma atividade em altura pode ter uma reação física ao susto. E o inverso também acontece: um susto físico pode virar trauma psicológico. Um risco alimenta o outro.
O adulto também corre risco
A análise de risco costuma mirar só o jovem - mas o adulto cardíaco, claustrofóbico ou simplesmente mais pesado também precisa de ficha de saúde em dia e de um plano para o caso de passar mal no campo.
Boas práticas para levar ao seu grupo amanhã
Seis hábitos citados na live, nenhum deles caro ou complexo de instituir num Grupo Escoteiro comum.
Visita técnica antes de qualquer atividade nova
Vá ao local com antecedência, de preferência com a equipe de escotistas junto - e aproveite para transformar a visita num piquenique de confraternização.
Registre as lições aprendidas
Depois de qualquer atividade, pergunte: o risco que eu previ realmente aconteceu? Surgiu algo que eu não esperava? Atualize a APR com o que aprendeu, não a arquive.
Use a pirâmide de Bird na sede
Cada desvio pequeno e recorrente (uma escada sem corrimão, por exemplo) que ninguém corrige é o que antecede o acidente maior. Corrigir o desvio é mais barato do que remediar o incidente.
Alimente um banco de dados regional
Cada APR concluída vira referência para o próximo voluntário que for aplicar uma atividade parecida - ninguém precisa começar do zero toda vez.
Compartilhe o risco, nunca guarde para si
Chefe de seção, diretor de métodos, assistentes - todo mundo que tem contato com a atividade precisa saber dos riscos levantados, não só quem preencheu a APR.
Registre padrões de segurança no regimento interno
Assim, quem chega novo no grupo - de qualquer lugar, com qualquer bagagem - já encontra a fonte oficial de como aquele grupo trata a segurança.
Quer aplicar a APR no seu Grupo Escoteiro?
Marcelo André Florian e a Equipe Regional de Gestão de Riscos do RS disponibilizam o modelo em branco da APR e a matriz de risco completa. Peça pelos canais do Guia Decola.
Da plateia
Duas reações do chat ao vivo que resumem bem o espírito da conversa.
"A diretoria sempre solicita atualização da análise de riscos com avaliação - ou seja, se houve modificação em função de algum acidente." (Susana)
É exatamente o rito das lições aprendidas descrito no capítulo de boas práticas: a APR não é um documento que se preenche uma vez e se arquiva, é vivo e deve ser revisado sempre que a experiência de campo mostrar algo que a análise original não previu.
"Vivi todas as experiências quando jovem entrando no movimento. Hoje, como membro da equipe de Espaços Seguros, tenho outra visão sobre segurança." (Cristiane)
O próprio Florian reconhece o mesmo movimento na sua trajetória: voltou ao escotismo como adulto voluntário em 2018 e "se assustou" com o quanto a segurança havia mudado desde a época em que era jovem - para melhor.
De onde vem este conteúdo
Esta página é a transcrição organizada da live "T04E04 - Segurança nas Atividades" do canal Guia Decola, com Marcelo André Florian - do Grupo Escoteiro Santiller (Caxias do Sul), coordenador da Equipe Regional de Gestão de Riscos e integrante da Equipe Regional de Segurança em Atividades Escoteiras / Espaços Seguros do Rio Grande do Sul.